O mito do Photoshop

Fotografia vem do latim fos grafis, escrever com a luz. Se é legitimo fazer pequenas correcções sem alterar o contexto estético e documental da imagem, as grandes manipulações feitas num editor de imagem ou na câmara escura existem e sempre vão existir, devem é ser assumidas não como fotografia mas design gráfico.

Ansel Adams passou mais tempo na câmara escura do que qualquer fotografo hoje em dia passa no Photoshop. É uma ferramenta poderosíssima, prática, eficaz, limpa (sem químicos, sem banhos), uma enorme ajuda, mas que só por si não faz a fotografia, tal como a câmara escura só por si não fazia a fotografia. Praticamente tudo que se faz (e tudo que eu faço) no Photoshop, era feito por um bom técnico na câmara escura, desde o contraste, exposição, sharp, saturação, etc, etc. E mesmo as foto-montagens tão facilitadas no Photoshop, eram já feitas na câmara escura. Um dos primeiros casos a aproveitar a manipulação da imagem para propaganda foram as campanhas de Estaline, em que eram “apagados” os dissidentes que estavam ao seu lado nas fotografias, e era multiplicado o número de homens que assistiam aos seus discursos até perder de vista, ao mesmo tempo que pára-quedistas desciam dos céus numa mostra do poderio e dimensão do regime.

Por isso, o que os editores de imagem mais potentes vieram trazer foi mais limpeza, mais facilidade na homogeneidade de resultados, mais fluidez e rapidez no processo. Tudo isto é muito bom e é um avanço enorme na simplificação do “workflow”, mas os que pensam que basta disparar que depois corrige-se, ou pior “faz-se” no Photoshop estão enganados. A fotografia continua a ser criada 95% na hora do disparo, e 5% num editor de imagem. Esta proporção é igual à do tempo de Ansel Adams com a câmara escura. Quantas imagens conhecemos que são perfeitamente editadas, belíssimas esteticamente, com cores celestiais, mas que são como aqueles pratos muito bonitos que quando se prova não sabem a nada. Ao passo que há imagens pouco ou nada editadas, como a obra do Cartier-Bresson, que são obras de arte, vendidas por milhares ou milhões de dólares, ou a “Moonlight” feita ainda na placa de vidro com banho de colodium, potássio e sais de prata, vendida por quase 3 milhões de dólares. Retocar uma imagem é um processo normal, mas achar que a ferramenta do retoque é que faz a imagem, não passa de um mito.

Correu pelos noticiários a imagem da Julia Roberts de pele imaculada numa campanha publicitária de cosméticos. O espanto dos média foi um enigma para mim, falavam do Photoshop, e referem-se a edição como “fizeram Photoshop”! Mas haverá algum anuncio de cosméticos que não foi feito um tratamento de imagem ao mais ínfimo pormenor, que todas as imperfeições (humanas) e poros da pele são eliminados? Não, nem nunca houve, mesmo muito antes de existirem computadores e Photoshop. Se não há regras na publicidade, se vale dizer mentiras, se vale mostrar grafismos e dizer que são fotografias, é o consumidor que tem de se proteger. O espanto dos média com a noticia da Julia Roberts, foi algo do género, “que pena, o meu gato morreu depois de o secar no micro-ondas, no manual não dizia que não podia secar animais”, é inocência pura.