Linguagem da “Street Photography”

 

Fotografar nas ruas de forma desinibida não é tarefa fácil. Apontar a câmara a desconhecidos, a menos de 1 metro das suas caras pode ser muito intimidante, e muitas vezes fazer o fotografo recuar e desistir de fazer a fotografia. Desistir, ou não estar preparado é das piores sensações que um fotografo pode experimentar, fica para sempre a dúvida se essa não seria a fotografia que mais procurava. Tal como alguém que aprende uma língua nova tem que praticar para superar as dificuldades e se tornar fluente, um fotografo também tem de aprender uma linguagem específica para conseguir trabalhar nas ruas sem receios nem hesitações. Existem várias técnicas que facilitam este processo, que funciona como um combate de boxe, em que se estuda o adversário, entre avanços e recuos, para no momento certo com o adversário desprevenido disparar de forma simples e eficaz. A aproximação é fundamental, como dizia Robert Cappa, “se a fotografia não ficou suficientemente bem é porque não estive suficientemente perto”. E esta proximidade é nos dois sentidos, física, usando uma grande angular, e também emocional, no sentido do fotografo sentir-se envolvido como que por osmose, fazendo parte daquele momento sem no entanto alterar o que quer que seja.

Para abrir caminho, o comportamento é essencial, o fotografo tem de se sentir confortável com a máquina na mão, e não encontro um cliché melhor do que “a câmara como a extensão do braço”, uma postura calma, tranquila e seguro de si próprio, muitas vezes um sorriso quebra o gelo e ser sincero é sempre o melhor caminho. Se for preciso explicar quem somos e porque fotografamos, o melhor é sempre dizer a verdade, educadamente, sempre com o máximo de respeito por aqueles que são o motivo que nos leva a estar ali, para que percebam que estamos por bem e a trabalhar.

O dilema é muitas vezes pedir ou não permissão para fotografar. Em muitos casos é possível e só facilita o trabalho, porque a partir do momento que temos autorização, torna-se tudo muito mais simples, não temos de ser invisíveis ainda que nunca queiramos interferir no enquadramento. Só se deve pedir quando achamos que vamos ter autorização porque a partir do momento que se tem um resposta negativa, acabou-se a oportunidade. Muitas vezes pedimos a alguém para ser fotografado que não é o motivo principal da fotografia, mas antes um plano de fundo para algo mais interessante que não queremos correr o riso de pedir autorização e perder a oportunidade. Acontece que na fotografia espontânea de rua não há tempo para pedir autorização, as situações aparecem e desaparecem de forma quase instantânea. Há que estar sempre preparado, usando lentes fixas com um diafragma mais fechado, f/11, fazendo uso da distancia hiperfocal para não haver preocupação nem tempo perdido com a focagem, o mesmo em relação à luz, fazer a medição prévia na palma da mão (que reflecte mais ou menos como um cinza médio, 18% da luz incidente, para o qual está calibrado o fotómetro das câmaras). Normalmente com céu limpo, a exposição rondará os 1/250s, f/11 a iso100. Com a exposição e focagem preparados, resta-nos ter todos os sentidos bem apurados para determinar o momento certo, enquadrar e disparar. O enquadramento resulta sempre se for feito em camadas, elementos em diferentes profundidades relacionados entre si, que levam o leitor da fotografia a ler a imagem ao longo de todo o enquadramento de forma natural. A espera pelo momento em que estas camadas se situem no momento exacto do enquadramento é a chave para este tipo de fotografia. É neste caso em que não se estabeleceu um contacto com o(s) fotografado(s) que a linguagem tem de ser mais precisa e bem aplicada, para nos sentirmos invisíveis no meio de uma multidão, fazendo com que aqueles que reparam em nós, acreditem que não estamos interessados neles, e por isso olhem para nós com uma câmara nas mãos, mas que se convençam que não os estamos a fotografar. O querer esconder-se muitas vezes funciona ao contrário e faz com que os outros reparem em nós, como alguém que pode ser uma ameaça porque tem algo a esconder. Deixar ser-se visto e fazer convencer os outros que não estamos interessados neles e somos apenas mais um transeunte, é uma tarefa que quando bem trabalhada resulta de forma muito eficaz, e sem qualquer alteração da realidade, que é o que se pretende. Para convencer os outros que somos apenas mais um transeunte, há vários métodos que podem ser usados, por exemplo, no momento em somos olhados por quem queremos fotografar apontar a câmara noutra direcção como que dizendo, “não é a si que quero fotografar, pode passar à vontade”, e no momento exacto, apontar e disparar de forma rápida. Quando alguém esta parado no passeio, é mais difícil ao fotografo fotografar de forma natural, o “lugar do passeio” é dessa pessoa, ao passo que quando estamos a fotografar numa direcção que vão passando pessoas, aí o “lugar do passeio” é nosso, fomos os primeiros a estar ali a fotografar, e podemos fazer isso, os outros é que estão a caminhar na nossa direcção. Jogos deste género podem dar ao fotografo mais confiança e determinação para fazer o seu trabalho. Nesta situação, à medida que os transeuntes se aproximam, vão reparando (ou não) que está à sua frente alguém a fotografar. É muito mais fácil encarar alguém pelo visor da máquina do que na realidade, o que vemos no visor, é outro mundo que nos faz abstrair da realidade, razão pela qual muitos fotojornalistas em situações de extrema violência, a câmara funciona como um escudo de protecção para não se deixarem afectar pela realidade. Existe um momento até ao qual se pode fotografar esses transeuntes de forma natural, que é quando depois de verem alguém a fotografar na sua direcção, continuam durante uma fracção de segundo de forma natural a processar essa informação, que quando interiorizada, faz normalmente cair uma máscara, ou um sorriso, ou um desvio do rosto, perdendo nesse exacto momento a naturalidade pretendida neste tipo de fotografia.

Estes métodos tem de ser treinados e aperfeiçoados ao ponto de se conseguir fotografar sem hesitações, ver algo a acontecer em frente da objectiva e disparar à medida que se aproxima e enquadra, como se não existissem qualquer tipo de barreiras, com uma dose de agressividade e o dobro em respeito pelos outros.

“Expor à direita”

Muitas vezes quando ando a fotografar nas ruas e me abordam para falar de fotografia, são raras as vezes em que não aparece a pergunta, “qual a melhor maneira para determinar a exposição correcta”? Quando estou à procura/espera de uma imagem específica, esquivo-me a perguntas, afinal estou a trabalhar, mas se tenho tempo para alimentar a conversa, dou sempre a mesma resposta, “há duas respostas, uma artística e outra meramente técnica que não põe a componente artística de lado”. Convém saber antes demais que as câmaras fotográficas conseguem captar uma diferença de luminosidade muito inferior aos nossos olhos, por isso o que vemos não corresponde à luminosidade da fotografia, ou as sombras ficam muito escuras, ou as zonas de maior luminosidade ficam brancas sem detalhe. Chama-se gama dinâmica (ou dynamic range) à quantidade de luminosidades que se consegue distinguir entre o branco e o preto, as câmaras fotográficas tem uma gama dinâmica muito inferior aos nossos olhos. Assim sendo, a resposta artística é muito simples, depende. Nas artes não há verdades absolutas, algoritmos, ou o que quer que seja para dar a fórmula da poção mágica. Cada um é que sabe o quer, é como perguntar que carro devo comprar. Depende, se não precisar de espaço, gosto de performances, então a resposta é um desportivo, se gosto de viajar por África, a resposta é um todo-terreno, se tenho filhos para levar à escola todos os dias e preciso de espaço, a resposta é um monovolume, se quero ter prazer de condução, compro uma mota. A resposta podem ser do mais variada possível, depende dos gostos e necessidades de cada um. A exposição correcta, depende da sensibilidade de cada um, do que se pretende mostrar. Steve Mccurry (célebre pelo retracto da menina Afegã) é conhecido entre os colegas como “Príncipe da Escuridão”, a sua luz preferida é o anoitecer até uns 3 minutos depois do pôr do sol. Expõe normalmente para as zonas mais luminosas e não se importa que as sombras fiquem sem detalhe, numa área a negro. Tal como Alex Webb ou Constantine Manos, no seu livro American Color (I e II, livros obrigatórios) descreve América de/com grandes contrastes, entre cores muito saturadas e sombras a negro sem grande detalhe. Depende do gosto de cada um, uns expõe para as zonas mais luminosas ficando com imagens mais escurecidas, outros expõe para zonas com menos luminosidade, preferem ter sombras com todo o detalhe, e uma imagem com maior luminosidade.

Mas para a reposta mais técnica, quando se pretende uma imagem com o máximo de qualidade, com o mínimo de ruído, a resposta é mais concreta, “expor à direita”. Antes de explicar o que significa, é necessário saber que o nosso cérebro funciona de modo não-linear, isto é, se pegar-mos num saco de arroz, sentimos um determinado peso, se colocar-mos outro saco igual de arroz pode-mos não sentir exactamente o dobro do peso. Ou se duplicar-mos os decibeis, pode-mos não ouvir duas vezes mais alto. Esta capacidade que temos de esticar ou compactar as escalas dá-nos uma amplitude enorme de sensações, podemos distinguir entre sensações muito próximas e ter a percepção de sensações extremas. O filme fotográfico funciona da mesma maneira, ao contrário dos sensores digitais que funcionam de modo linear. Isto é, se para uma imagem de 12 bits, temos 4096 níveis de luminosidade disponíveis (2^12), então o nível 2048 representa metade da luminosidade do nível 4096. Os níveis correspondem ao número de fotões (quantidade de luz) neste sistema linear. Tendo em conta este conceito na altura de determinar a exposição, por exemplo numa câmara com seis stops de gama dinâmica (lembrando que um stop seguinte tem o dobro ou metade da luminosidade do stop anterior), metade dos 4096 níveis (2048) estão destinado ao stop mais luminoso, a metade seguinte (1024) ao stop anterior, e assim sucessivamente até ao ultimo stop apenas com 64 níveis:

Corrigindo a distribuição da gama no histograma, que é o que faz a câmara ao gravar um jpeg, ou um conversor de ficheiros Raw, obtém-se o histograma com a luminosidade distribuída de forma homogénea:

Com o filme fotográfico, nomeadamente os diapositivos, exponha-se para as zonas mais luminosas, porque o detalhe nas sombras era facilmente recuperado em edição posterior e os “highlights” eram perdidos para sempre. No caso dos sensores, os “highlights” também são praticamente irrecuperáveis, mas como se vê nas figuras anteriores, a parte mais à esquerda do histograma, contém muito menos informação do que parte mais à direita. Daí o termo “expor à direita”, ou seja, expor o máximo à direita do histograma, para ter o máximo de informação, mas sem ultrapassar a gama dinâmica da câmara para não perder irremediavelmente detalhe nos “highlights”. Ao abrir a imagem RAW num conversor (ACR, Lightroom, etc) tem-se toda a liberdade para mexer na exposição e coloca-la com a luminosidade pretendida, daí escrevia no inicio que esta parte da resposta mais técnica não descurava a parte artística.

Resumindo, a questão da exposição é relativa à sensibilidade de cada um, a decisão cabe ao fotógrafo na altura do disparo, mas se quiser-mos uma imagem com pouca luminosidade, e a máxima qualidade técnica, fotografa-se em RAW, expõe-se de maneira que a maior quantidade de pixeis fiquem o mais à direita possível no histograma, sem atingir a parede direita do histograma, para não perder informação nos “highlights”, abrir a imagem num conversor RAW, e corrigir na exposição em -1 stop ou quanto for necessário. As imagens seguintes mostram a diferença de ruído para diferentes exposições numa situação levada ao extremo, de 2 stops de diferença (crop 100%):

1/160 f/14, iso 200

1/40 f/14, iso 200, corregido em -2 stops no Adobe Camera Raw

1/160 f/14 iso 200

1/40 f/14 iso 200, corregido em -2 stops no Adobe Camera Raw