“Expor à direita”

Muitas vezes quando ando a fotografar nas ruas e me abordam para falar de fotografia, são raras as vezes em que não aparece a pergunta, “qual a melhor maneira para determinar a exposição correcta”? Quando estou à procura/espera de uma imagem específica, esquivo-me a perguntas, afinal estou a trabalhar, mas se tenho tempo para alimentar a conversa, dou sempre a mesma resposta, “há duas respostas, uma artística e outra meramente técnica que não põe a componente artística de lado”. Convém saber antes demais que as câmaras fotográficas conseguem captar uma diferença de luminosidade muito inferior aos nossos olhos, por isso o que vemos não corresponde à luminosidade da fotografia, ou as sombras ficam muito escuras, ou as zonas de maior luminosidade ficam brancas sem detalhe. Chama-se gama dinâmica (ou dynamic range) à quantidade de luminosidades que se consegue distinguir entre o branco e o preto, as câmaras fotográficas tem uma gama dinâmica muito inferior aos nossos olhos. Assim sendo, a resposta artística é muito simples, depende. Nas artes não há verdades absolutas, algoritmos, ou o que quer que seja para dar a fórmula da poção mágica. Cada um é que sabe o quer, é como perguntar que carro devo comprar. Depende, se não precisar de espaço, gosto de performances, então a resposta é um desportivo, se gosto de viajar por África, a resposta é um todo-terreno, se tenho filhos para levar à escola todos os dias e preciso de espaço, a resposta é um monovolume, se quero ter prazer de condução, compro uma mota. A resposta podem ser do mais variada possível, depende dos gostos e necessidades de cada um. A exposição correcta, depende da sensibilidade de cada um, do que se pretende mostrar. Steve Mccurry (célebre pelo retracto da menina Afegã) é conhecido entre os colegas como “Príncipe da Escuridão”, a sua luz preferida é o anoitecer até uns 3 minutos depois do pôr do sol. Expõe normalmente para as zonas mais luminosas e não se importa que as sombras fiquem sem detalhe, numa área a negro. Tal como Alex Webb ou Constantine Manos, no seu livro American Color (I e II, livros obrigatórios) descreve América de/com grandes contrastes, entre cores muito saturadas e sombras a negro sem grande detalhe. Depende do gosto de cada um, uns expõe para as zonas mais luminosas ficando com imagens mais escurecidas, outros expõe para zonas com menos luminosidade, preferem ter sombras com todo o detalhe, e uma imagem com maior luminosidade.

Mas para a reposta mais técnica, quando se pretende uma imagem com o máximo de qualidade, com o mínimo de ruído, a resposta é mais concreta, “expor à direita”. Antes de explicar o que significa, é necessário saber que o nosso cérebro funciona de modo não-linear, isto é, se pegar-mos num saco de arroz, sentimos um determinado peso, se colocar-mos outro saco igual de arroz pode-mos não sentir exactamente o dobro do peso. Ou se duplicar-mos os decibeis, pode-mos não ouvir duas vezes mais alto. Esta capacidade que temos de esticar ou compactar as escalas dá-nos uma amplitude enorme de sensações, podemos distinguir entre sensações muito próximas e ter a percepção de sensações extremas. O filme fotográfico funciona da mesma maneira, ao contrário dos sensores digitais que funcionam de modo linear. Isto é, se para uma imagem de 12 bits, temos 4096 níveis de luminosidade disponíveis (2^12), então o nível 2048 representa metade da luminosidade do nível 4096. Os níveis correspondem ao número de fotões (quantidade de luz) neste sistema linear. Tendo em conta este conceito na altura de determinar a exposição, por exemplo numa câmara com seis stops de gama dinâmica (lembrando que um stop seguinte tem o dobro ou metade da luminosidade do stop anterior), metade dos 4096 níveis (2048) estão destinado ao stop mais luminoso, a metade seguinte (1024) ao stop anterior, e assim sucessivamente até ao ultimo stop apenas com 64 níveis:

Corrigindo a distribuição da gama no histograma, que é o que faz a câmara ao gravar um jpeg, ou um conversor de ficheiros Raw, obtém-se o histograma com a luminosidade distribuída de forma homogénea:

Com o filme fotográfico, nomeadamente os diapositivos, exponha-se para as zonas mais luminosas, porque o detalhe nas sombras era facilmente recuperado em edição posterior e os “highlights” eram perdidos para sempre. No caso dos sensores, os “highlights” também são praticamente irrecuperáveis, mas como se vê nas figuras anteriores, a parte mais à esquerda do histograma, contém muito menos informação do que parte mais à direita. Daí o termo “expor à direita”, ou seja, expor o máximo à direita do histograma, para ter o máximo de informação, mas sem ultrapassar a gama dinâmica da câmara para não perder irremediavelmente detalhe nos “highlights”. Ao abrir a imagem RAW num conversor (ACR, Lightroom, etc) tem-se toda a liberdade para mexer na exposição e coloca-la com a luminosidade pretendida, daí escrevia no inicio que esta parte da resposta mais técnica não descurava a parte artística.

Resumindo, a questão da exposição é relativa à sensibilidade de cada um, a decisão cabe ao fotógrafo na altura do disparo, mas se quiser-mos uma imagem com pouca luminosidade, e a máxima qualidade técnica, fotografa-se em RAW, expõe-se de maneira que a maior quantidade de pixeis fiquem o mais à direita possível no histograma, sem atingir a parede direita do histograma, para não perder informação nos “highlights”, abrir a imagem num conversor RAW, e corrigir na exposição em -1 stop ou quanto for necessário. As imagens seguintes mostram a diferença de ruído para diferentes exposições numa situação levada ao extremo, de 2 stops de diferença (crop 100%):

1/160 f/14, iso 200

1/40 f/14, iso 200, corregido em -2 stops no Adobe Camera Raw

1/160 f/14 iso 200

1/40 f/14 iso 200, corregido em -2 stops no Adobe Camera Raw