O preço da “agenda própria”

Ter uma agenda própria, às vezes está conotado negativamente, mas pode não significar interesses pouco ortodoxos, pode significar personalidade ou não desistir de perseguir o que no fundo todos procuramos.

As pessoas acreditam na fotografia, no nosso bilhete de identidade não está um texto de adjectivos, ou um desenho, mas sim a forma mais precisa de descrição da realidade, a fotografia. Os primeiros editores da National Geographic diziam que “o leitor tem de ver para acreditar”, e a revista é hoje um exemplo de qualidade e informação. Em muitas multinacionais, o departamento de design é considerado dos mais importantes da empresa. A imagem foi e está ganhando destaque, ainda que por vezes com um efeito perverso, em que o conteúdo é posto de lado e preterido pelo lado mais vazio, o invólucro. E o que é que a fotografia tem a ganhar com isto? Não sei bem, à partida teria tudo a ganhar, mas o problema é que com a valorização da imagem, apareceu também, não sei se com ou sem relação, a produção em massa e nos últimos anos uma crise na Europa e na América, o investimento a longo prazo é muito mais complicado e cuidado. Como diz o Sebastião Salgado, para fotografar é preciso tempo, será que o mestre conseguia os (difíceis) apoios que teve para os seus grandes projectos, Genesis, Workers, Migrations, etc? Se ele se queixou na altura que os realizou, agora o mais provável era esses apoios para 3 e 4 anos (?!?) ficarem na gaveta, mesmo com a assinatura de um dos maiores mestres. Qualidade versus quantidade, uma é mais cara e demorada, outra é mais barata e descartável. A imagem tem de estar em todo o lado, mas com o desafio de hoje, bom, barato e rápido, ainda que com novas tecnologias que facilitam o processo, não houve um salto na qualidade da fotografia em relação à que era feita há 40 anos atrás. Os que arriscam uma agenda própria, sacrificando-se nos luxos que a vida tem para oferecer, são os que por vezes conseguem atingir a qualidade dos grandes mestres. Como Andreas Gursky, que viu a sua fotografia, “99Cent”, ser vendida pelo valor recorde de mais de 3 milhões de dólares. Ou Elliot Erwitt, da Magnum, que o seu editor confessa que o julgou morto por várias vezes, tal era o tempo que estava em viagem sem dar noticias, cumprindo uma agenda própria, levando o tempo necessário para fotografar o que achava que tinha de ser fotografado. Vivemos tempos muito diferentes dos anos 50 e 60, tempos crescimento económico, pelo menos na América, de petróleo barato, em que as Road Trips produziram obras que hoje são consideradas como enciclopédias daqueles tempos, “The Americans” de Robert Frank, ou “The Europeans” do Cartier Bresson. Foi graças a uma bolsa que Robert Frank pode partir na sua viagem que o tornaria num biografo da América daqueles tempos. O Renascimento teria a força que teve se o Vaticano não encomendasse obras e pagasse aos artistas? Sebastião Salgado teria conseguido produzir os seus trabalhos sem apoios? Robert Frank partiria na mesma para a sua viagem se não tivesse uma bolsa do Guggenhein? Com a convicção e qualidade das suas obras, arriscava a dizer que sim, mas numa viagem mais curta e económica, à partida a obra não teria a qualidade que tem. Como muitos outros fotógrafos da época que sem dinheiro, só tinham orçamento para fazer uma fotografia de grande formato por dia, ou então não comiam nesse dia. Obviamente que nem todos, mas alguns dos que decidiram seguir o seu caminho colheram os frutos, Stephen Shore, William Eggleston, Sebastião Salgado, Steve Mccurry, tem hoje as suas obras expostas nos principais museus e galerias de todo o mundo, e provavelmente já podem fotografar mais do que uma chapa de grande formato por dia.

Se para fotografar é preciso tempo, e tempo é dinheiro, então a fotografia depende do estado da economia, e talvez seja mesmo. Como em tudo, quando há dinheiro tudo se faz, mas os tempos são de fazer mais com menos. É o desafio desta geração.

Em tempos de linhas de montagem a todo o vapor, resta-nos escolher entre fazer parte dessa linha, ou tentar trilhar um caminho próprio, o que acontece na maior parte dos casos é estar com um pé na linha de montagem para sobreviver hoje, e outro pé num trilho próprio para alimentar o ego, tentar sobreviver amanhã, e um dia não dar o tempo como perdido.