O homem da cabeça quadrada

Partilho a ideia do William Egglestone quando diz que não dá nomes às suas fotografias, não coloca a data, lugar ou qualquer descrição. A descrição está dentro dos limites da fotografia e não no verso ou num canto escondido. A imagem deve falar por si, é certo, mas também é verdade que às vezes o nome impõe-se à obra. “A rapariga do elevador” do Robert Frank, ou “O homem que anda” do Giacometti, são nomes simples que se impõe naturalmente e descrevem a obra instantaneamente. Terão sido os autores a dar o nome? Ou será que a obra ganhou vida própria e se auto-intitulou? 

Apercebi-me disto com uma fotografia minha feita ao final da tarde numa paragem de autocarro à hora de ponta em que era suposto a paragem estar cheia, muito trânsito na estrada, frio, muitas pessoas apressadas no passeio mas não, estava tudo ao contrário, estava só um homem na paragem, não passaram carros na estrada, passeio quase deserto, quente mas não muito e uma sobreposição que compunha a moldura, uma homem de cabeça quadrada. Neste micrcosmos em que nada parecia fazer sentido, o homem sentado chamou-me a atenção e fiz três fotografias, não foram mais porque o microcosmos desapareceu, voltou o trânsito, a paragem encheu-se de gente e o homem foi à sua vida. Mais tarde a ver as fotografias do dia enquanto procurava essa imagem especifica pensava baixinho “onde está a do homem da cabeça quadrada”. Dias depois numa troca de e-mails disseram-me “onde foi feita aquela fotografia do homem da cabeça quadrada”? Na última exposição o responsável disse “eu quero em destaque a do homem da cabeça quadrada”. Neste cenário não tenho alternativa em aceitar o nome para a fotografia do homem da cabeça quadrada. Não tem nada a ver com nenhuma conotação negativa, nome dado aos soldados Alemães na II guerra ou aos nórdicos pela maneira como cortavam o cabelo, tem a ver apenas com aquele microcosmos que se gerou ali por pouco tempo, uma descrição de um cenário momentâneo, como tudo se pode alterar de um momento para o outro e como o mais improvável pode mesmo acontecer, se calhar acontece a toda a hora, nós é que não vemos. Mas se for assim já não é improvável e não se pode chamar microcosmos, mas cosmos. Talvez só queremos ver aquilo com que podemos contar e estamos preparados para aceitar, o resto pode ser território desconhecido e imprevisível. Neste cenário lembrei-me da descrição que o Joel Meyerowitz faz de uma sua fotografia em Cape Cod em que depois de accionar o obturador da câmara de grande formato, um raio cai no mar dentro do enquadramento, uma prenda de Deus, diz Meyerowitz. Sendo assim nós fotógrafos devemos ser servos de Deus e o Robert Adams tem razão quando diz que os fotógrafos não são Deus porque não criam nada, mas são anjos que dão às pessoas uma segunda oportunidade de ver aquilo que não viram. 

Concordo com o Egglestone mas há casos que um nome é imposto e não sei se o autor quis ou não dar um nome à sua obra, provavelmente limitou-se a encolher os ombros e a aceitar uma evidencia ou uma imposição da própria obra. E pela primeira vez aconteceu a mim. 

 

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